O sonho dele era cuidar dos bichos.
O nome dele é Artur. 11 aninhos. Meu único filho.
O pai foi embora quando ele nasceu. Eu virei faxineira; ele, meu estudante.
Ele me dizia: 'Mãe, vou ser veterinário. Vou cuidar dos bichinhos e da senhora.'
Amava todo bicho. Esse era o sonho dele.
Naquele dia, ele não correu.
Ele desceu para brincar no parquinho do condomínio, como fazia todo dia.
Tinha outras crianças ali, menores que ele. Aí um pitbull pulou o muro.
O Artur não correu. Ficou na frente delas para proteger as menores.
As mordidas que seriam delas foram todas para o meu filho.
A perna dele está destruída.
Ele não consegue andar. Não consegue nem levantar da cama.
O médico disse: se a cirurgia não sair em 30 dias, a infecção avança.
E se avançar demais, ele pode perder a perna.
Pelo SUS, a fila do especialista é de seis meses. O Artur tem 30 dias.
As crianças estão bem. Por causa dele.
Nenhuma daquelas crianças ficou ferida. Porque o meu filho ficou na frente.
E sabe o que mais me revolta? O dono do cachorro sumiu.
Ninguém foi responsabilizado. Meu filho na cama, e o culpado solto.
Eu sou faxineira, ganho um salário mínimo. Sozinha, eu não consigo salvar ele.